
Folha de redação do Enem
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Antes de identificar o tema da redação, listar repertórios, desenvolver argumentos ou sugerir uma proposta de intervenção, o participante do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2026 deve identificar o comando da frase temática.
O comando é o trecho da oração que indica qual o caminho esperado para aquela determinada proposta.
Em 2020, a frase temática era “O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira”. Neste caso, era esperado que o estudante dissertasse sobre a discriminação que assola pessoas com doenças mentais. Aquele que escrevesse sobre os efeitos das doenças mentais para a pessoa nessa condição ou focasse unicamente na invisibilização dessas pessoas provavelmente perderiam pontos por fuga do tema.
“Muitos candidatos cometem o erro de focar apenas no assunto geral (como ‘envelhecimento’, ‘cinema’ ou ‘saúde mental’) e negligenciam as palavras-chave que determinam o recorte temático e o comando. O objetivo da redação muda substancialmente dependendo do direcionamento desse comando, exigindo projetos de texto e estratégias argumentativas completamente distintos”, explica Daniela Toffoli, Coordenadora de Linguagens e professora de redação do Colégio Anglo São Paulo.
Agora no g1
Professores ouvidos pelo g1 explicam que a maneira como o tema é apresentado, em uma frase específica, deve servir como bússola para a estrutura do texto do estudante.
Como entender os comandos
Lucas Neves, professor de redação do Colégio Leonardo da Vinci, reforça que o aluno não pode levar em conta apenas o público-alvo ou o problema destacado, mas a frase como um todo. “Se a palavra está lá, alguma coisa significa”, diz.
Ele explica que uma proposta pode apontar uma projeção futura, sugerir uma ideia positiva e otimista, destacar preconceitos e estereótipos ou mesmo focar na problematização dos obstáculos que contribuem para a permanência do problema — tudo a depender do comando da frase temática.
Veja como o comando pode mudar, de maneira prática, o objetivo da redação, de acordo com Daniela Toffoli:
“Perspectivas acerca do…”: A palavra “perspectivas” exige uma visão ampla, que engloba tanto os panoramas atuais quanto os futuros. O aluno precisa discutir como a sociedade enxerga ou projeta o fenômeno. Embora o Enem sempre dialogue com uma problemática, esse comando abre margem para analisar avanços legais e contrastá-los com as lacunas que ainda persistem na prática.
“Desafios para…” ou “Desafios do…”: Esse é o comando clássico da banca. Quando o Enem usa a palavra “desafios”, ele sinaliza que o problema central já existe e está consolidado, cabendo ao estudante focar a sua argumentação estritamente nos obstáculos e barreiras que impedem a resolução ou a garantia daquele direito. O foco passa a ser responder: por que ainda é tão difícil lidar com essa questão no Brasil?
“O estigma associado a…”: Semelhante ao que ocorreu no Enem 2020 com a saúde mental. Aqui, o foco argumentativo se estreita drasticamente. O aluno não deve discutir apenas os aspectos socioeconômicos ou estruturais do envelhecimento, mas sim a dimensão cultural e simbólica do problema: o preconceito, a marginalização social, a rotulação e o julgamento que recaem sobre o idoso. Mudar o foco para a infraestrutura urbana, por exemplo, sem conectar ao preconceito, configuraria um tangenciamento.
Apesar dos riscos de perda de ponto caso o direcionamento do texto desvie da proposta original, os professores aconselham que o aluno não se desespere caso não entenda o significado exato do comando, já que o foco principal deve sempre ser a questão social e a proposta de intervenção.
Lucas Neves explica:
Independentemente dessa palavra (‘desafios’, ‘perspectivas’, ‘caminhos’), é fundamental fazer uma leitura ‘caprichada’ dos textos de apoio para compreender como aquela questão impacta a sociedade brasileira e quais são suas origens.
“Junto ao comando, o assunto proposto será um problema social, e isso é essencial que o aluno compreenda: caso não traga as causas e efeitos que esse problema gera (ou pode gerar) na sociedade, comprometerá todo o projeto de texto. Afinal, se nenhuma problemática for discutida, que sentido tem, ao final, o aluno propor uma intervenção? Se esse problema não for exposto, não há motivo para que seja ‘resolvido’”, Daniela Toffoli complementa.
Quais são os temas mais comuns no Enem?
A evolução dos comandos da frase temática
Os educadores avaliam que, apesar de o tipo de texto e a estrutura básica esperada permanecerem os mesmos, a maneira de apresentar a frase temática mudou.
“Ao analisarmos a trajetória do Enem nos últimos 10 a 15 anos, é possível observar uma mudança nítida e intencional na clareza e na precisão técnica das frases temáticas. As propostas atuais são mais cirúrgicas e estruturadas do que no passado”, a especialista do Colégio Anglo São Paulo explica.
“As frases temáticas passaram a apresentar um recorte significativamente mais específico e direcionado dos problemas sociais, focando com mais precisão em quem é mais afetado por essas realidades. Vimos isso claramente ao longo dos anos com temas como a violência contra a mulher, a intolerância religiosa e a valorização da herança africana”, Lucas Neves acrescenta.
Antes – Propostas mais abstratas: Há mais de uma década, o Enem trazia recortes amplos e de caráter quase sociológico abrangente. Tempos atrás, tivemos temas formulados de maneira mais aberta, como “O trabalho na construção da dignidade humana” (2010) ou “Viver em rede no século XXI: os limites entre o público e o privado” (2011). Eram frases que demandavam um esforço muito grande do aluno para recortar e delimitar o problema a ser debatido.
Agora – Foco absoluto na problemática social e no direito violado: Nos últimos anos, a banca refinou sua engenharia de enunciados. Os temas passaram a vir acompanhados de limitadores geográficos explícitos (“na sociedade brasileira”) e palavras que denunciam de imediato a vulnerabilidade social. Exemplos disso são temas como “Invisibilidade e registro civil: garantia de acesso à cidadania no Brasil” (2021) e “Desafios para a valorização de comunidades e povos tradicionais no Brasil” (2022).
Para Daniela Toffoli, essa mudança aconteceu para diminuir a ambiguidade da proposta. “Ao deixar a frase temática mais explícita e direta, a banca do exame ajuda o candidato a compreender exatamente qual é o problema social que precisa ser solucionado, além de tornar os critérios de correção sobre tangenciamento e fuga ao tema muito mais objetivos e justos em larga escala nacional”.
Estrutura esperada do texto
Cartilha de Redação do Enem 2025
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Todos os anos, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pelo Enem, divulga uma cartilha do participante para a redação do exame. É este documento que detalha as competências avaliadas na redação e apresenta eventuais mudanças na maneira de avaliar e atribuir notas do texto.
A cartilha de 2025, por exemplo, trouxe uma orientação explícita para reforçar uma regra já existente nas últimas edições do exame: a proibição de “repertórios de bolso”, que poderia implicar na perda de pontos em algumas competências.
O documento também detalhou como um texto ideal deve ter:
Apresentação e respeito ao tema: texto dissertativo-argumentativo, em modalidade escrita formal da língua portuguesa, sobre um tema de ordem social, científica, cultural ou política.
Defesa do ponto de vista: uma opinião a respeito do tema proposto — apoiada em argumentos consistentes, estruturados com coerência e coesão, formando uma unidade textual.
Uso de argumentos: selecionar, organizar e relacionar, também de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para a defesa do seu ponto de vista.
Proposta de intervenção: elaborar uma proposta de intervenção social para o problema apresentado no desenvolvimento do texto. Por fim, essa proposta deve respeitar os direitos humanos.
Tudo isso deve ser organizado de modo que respeite o formato de texto proposto (dissertativo-argumentativo) e englobe o máximo possível das cinco competências avaliadas.
Cada competência reúne aspectos específicos e recebe nota entre 0 e 200 pontos – que, somados, resultam na nota máxima de 1.000 pontos. A cartilha de 2025 as apresentou da seguinte maneira:
Competência 1: Demonstrar domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa.
Competência 2: Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema, dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo em prosa.
Competência 3: Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista.
Competência 4: Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação.
Competência 5: Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos.
Fonte: G1 Read More
